domingo, 13 de agosto de 2017

DESENHAR EM CIMA DA CONSERVA LIVRO DE TIRAS


DESENHAR EM CIMA DA CONSERVA
LIVRO DE TIRAS 

Nuno Saraiva
Susana Carvalhinhos
Lord Mantraste
João Maio Pinto
Pedro Brito
Pierre Pratt
Cristina Sampaio
Dileydi Florez
Pedro Lourenço
Alberto Faria 
André Carrilho

A Abysmo, de João Paulo Cotrim enviou-me este livrinho editado com a chancela Arranha Céus e apoiado pela Conserveira de Lisboa, Município de Setúbal e Festa da Ilustração de Setúbal - É Preciso Fazer um Desenho? Agradecendo desde já a J.P.Cotrim e à Abysmo, aqui fica o texto de introdução de Tiago Ferreira e algumas imagens.

BOAS IDEIAS
Tiago Cabral Ferreira

O que fazer quando se tem 5x1 metros de preto onde dar vida? Este foi o desafio que se nos deparou. A Conserveira de Lisboa tem tido nos últimos anos uma relação muito próxima com o mundo das artes e, naturalmente, surgiu a ideia de pintar, desenhar, ilustrar esse espaço. A ilustração tem sido, um pouco, um parente pobre nas artes plásticas, embora em Portugal haja artistas fantásticos e reconhecidos internacionalmente. Ao reconhecer esse trabalho de excelência a primeira decisão estava tomada.

Propor a alguns destes senhores ilustrar a nossa fachada todos os meses durante um ano.

Foi com esta pequena ideia no bolso que nos reunimos com a Arranha-céus para nos ajudar neste projecto. Combinámos uma reunião, pela tarde, num pequeno restaurante lisboeta e à medida que a conversa e algumas cervejas fluíam o projecto foi ganhando corpo. Porque não editar um livro com as ilustrações? Boa. Onze ilustrações não chegam para um livro. Porque não propomos fazerem uma pequena banda desenhada para acompanhar a ilustração? Boa. Porque não fazer um cadáver esquisito com as bandas desenhadas? Boa. Com os painéis podíamos fazer uma exposição? Boa. Por volta da hora de jantar estava criado o projecto Desenhar por cima da conserva. Depois foi um ano ao ritmo bom e mensal de um desenho ao vivo, no Mercado da Ribeira. Uma festa que passou depois por Setúbal, pelo Museu do Trabalho, no âmbito da Festa da Ilustração, com todos os trabalhos expostos pela primeira vez. Boa. Agora fez-se livro para abrir ainda mais os apetites. Boa.


O livrinho contém as biografias dos autores.

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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

BDpress #480 – MULHERES – João Ramalho Santos no JL

BDpress #480 – Recortes de imprensa sobre BD
Criado em Janeiro de 2004 como fanzine impresso até ao #15, em Março 2005, passando depois a ser editado no Kuentro

JL, 2 de Agosto 2017

MULHERES 
João Ramalho Santos 

A maré impressionante de edições de qualidade nos mais variados géneros (com destaque para as coleções "Novelas Gráficas" Levoir/PÚBLICO) tem um efeito secundário muito bem-vindo: a possibilidade de surgirem apostas em obras menos óbvias. É o caso dos dois livros da dupla franco-dinamarquesa baseada em Estrasburgo e constituída pela argumentista Anne-Caroline Pandolfo e pelo desenhador Terkel Risbjerg, editadas pela GFloy. Muito diferentes em tom, estilo e natureza das protagonistas, em ambos se sente um olhar empenhado em torno de questões de género, um olhar do/no feminino.

"O astrágalo" adapta "L'astragale" (1965), romance da escritora francesa Albertine Sarrazin (1937-1967), cuja curta e agitada existência (de abandono, abuso, institucionalização, crime e prisão) deu origem a três obras semi autobiográficas, das quais esta é a mais conhecida. Já o recém-editado "A Leoa" é uma ambiciosa BD biográfica sobre a grande escritora dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962). Em ambas há um claro interesse em mostrar a posição subalterna que as mulheres tiveram (têm) que transcender, e o modo com um universo masculino as tentou (tenta) controlar. É certo que as protagonistas não podiam ser mais diferentes: uma marginal de classe baixa sem grande educação formal, e uma burguesa nobre por casamento, a quem, apesar de tudo, foram dadas oportunidades.

Mas a leitura conjunta mostra bem a posição dos autores, entendida do histórico ao contemporâneo: a opressão é a mesma, varia o grau e o modo como é exercida. No caso de "O astrágalo" o simbolismo de ser a fratura de um pequeno osso do pé (que dá o nome ao livro) a deixar Anne à mercê do mundo não deixa de ser sintomático.

Note-se que em ambas as obras o foco é, não bem o controlo, mas as estratégias para dele se libertar. Nomeadamente através da marginalidade, quer literal ("O astrágalo"), quer via a figura tutelar de um pai que não encaixava na sociedade dinamarquesa (e que acabaria por se suicidar), mais tarde através dos grandes espaços africanos e seus habitantes ("A Leoa"). Mas há outro ponto importante a unir estas histórias: os "fracassos" de Anne/Albertine enquanto ladra e de Karen enquanto agricultora em África talvez as tenham conduzido ao sucesso na escrita, embora se sublinhe que Blixen assinou a princípio com o pseudónimo masculino Isak Dinesen, e teve a honra duvidosa de ter tido os seus manuscritos rejeitados por todos os editores dinamarqueses, com o sucesso no seu país natal a ser posterior à sua "descoberta" no mundo anglo- saxónico. E, sobretudo em "A Leoa", é notório o foco na vontade da protagonista em projetar a incompreensão que lhe era votada no sentido de compreender o Outro.

Para além deste posicionamento temático há ainda a relação texto/imagem. Desse ponto de vista não se pode dizer que o desenho de Terkel Risbjerg seja particularmente virtuoso ou inspirador, sobretudo no tratamento da figura humana. Mas o seu registo, num constante fugir da representação realista, tem uma qualidade efabulatória interessante, que complementa bem a escrita de Anne-Caroline Pandolfo. A qual, por sua vez, tende a ser muito pouco subtil, reforçando em permanência os motes e linhas de ação, como por exemplo no repetir dos simbolismos referenciais que rodeiam a vida de Blixen. É, pois, o desenho a ter o principal papel na criação de nuances; quer utilizando um traço decidido a preto e branco (com grandes manchas de negro) a caraterizar o ambiente que rodeia a protagonista em "O astrágalo"; quer as cores suaves em tom de aguarela a marcar o onírico, a fantasia e os grandes espaços em "A Leoa". Nas obras desta dupla é de facto evidente uma das caraterísticas mais interessantes da bánda desenhada, no sentido em que o todo é mais do que a soma das partes. JL


  







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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

BDpress #479 – A MINHA CASA NÃO TEM DENTRO DE ANTÓNIO JORGE GONÇALVES

BDpress #479 – Recortes de imprensa sobre BD
Criado em Janeiro de 2004 como fanzine impresso até ao #15, em Março 2005, passando depois a ser editado no Kuentro

A MINHA CASA NÃO TEM DENTRO 
DE ANTÓNIO JORGE GONÇALVES


Recebi este livro em Janeiro deste ano, enviado por João Paulo Cotrim, editor da Abysmo, ao qual quero agradecer agora e publicamente, por me ter enviado este A Minha Casa não tem Dentro de António Jorge Gonçalves. Deixo aqui o recorte do artigo do João Ramalho Santos, no JL, sobre o livro.

JL 10 a 23 de Maio de 2017

DOR
João Ramalho Santos

Classificar o trabalho de António Jorge Gonçalves (AJG) como "inclassificável" é uma opção possível, mas fácil. Em banda desenhada, ilustração, cartoon, cenografia ou performance há sempre uma componente temporal, um movimento que sugere percursos, não necessariamente uma narrativa. É certo que obras iniciais como As aventuras de Filipe Seems (argumentos de Nuno Artur Silva) tinham uma matriz de BD franco-belga afiliada à retoma contemporânea da "linha clara", que se foi desvanecendo (em termos de história e estilo) no último volume da trilogia, nas colaborações com Rui Zink (A arte suprema, Rei), e em trabalhos a solo, como O Sr. Abflio, Subway Life, ou o mais recente A minha casa não tem dentro (abysmo).

Resultado indireto de um problema de saúde grave do qual o autor recuperou, mas que implicou uma intervenção cirúrgica complexa e uma convalescença longa, é importante dizer desde logo que, apesar de toda a atenção que (muito justamente) foi dada a este notável livro e à história da sua génese, A minha casa não tem dentro merece ser encarado de um modo "neutral", no sentido em que o trabalho de AJG tem um poder evocativo, entre a maravilha e o medo, que transcende qualquer contextualização. Até porque, e apesar da tonalidade que este adjetivo em particular sempre carrega consigo, esta é uma obra acessível, certamente mais do que outros livros do autor, incluindo colaborações com argumentistas. Pode não o parecer a uma primeira vista/leitura, mas as palavras e imagens constroem, não bem uma narrativa, mas um conjunto evolutivo de momentos ou estados de espírito, sendo de destacar o uso de cor e sombra.

O livro não mistura palavras e desenhos, umas e outros fazem o seu caminho, com as palavras (obedientemente em quadradinhos) a resumirem memórias de diferentes instantes, e a balizarem conjuntos temáticos de imagens mudas de traço grosso, onde a cor promove acentos de azul e vermelho, a princípio separados, mais tarde juntos ou fundidos. O simbolismo é aqui para quem o quiser apanhar; e, depois de urna capa que não o parece, o próprio autor faz um aviso eloquente logo no início: cada leitor interpreta por sua conta e risco. Entre representações de caos organizado sobressaem alterações de escala, personagens sem rosto, e uma menina protagonista (?) que deambula num cenário feito de formas geométricas, pormenores de habitações mutadas, cenas mitológicas ou espetáculos circenses. A menina exerce apenas uma natural curiosidade, ou está à beira de se perder em perigos insuspeitos? As mãos que tudo apontam querem proteger ou esmagar? As multidões sem rosto representam um comentário irónico às típicas fotografias de família espalhadas pela casa, ou são um sinal de desagregação e perda de memória? O autor escolhe aspetos do familiar, e distorce-os numa visão febril onde se sentem evocações de isolamento, medo, dor, esperança. No final compreensivelmente otimista de A minha casa não tem dentro as figuras humanas surgem com caras concretas, as portas abrem-se para um branco que esperamos seja luz. (Sobre) vive-se, vence-se a dor, passa-se outro limiar. 

Como, noutro registo, Diniz Conefrey, António Jorge Gonçalves parte de uma matriz com elementos e convenções da banda desenhada, adaptando-os a um ritmo que é apenas seu. Convidando cada leitor a fazer o mesmo. 

Sem pedir explicações, nem oferecer as suas em troca.



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sábado, 29 de julho de 2017

398º ENCONTRO DA TERTÚLIA BD DE LISBOA – 1 DE AGOSTO 2017

398º ENCONTRO 
DA TERTÚLIA BD DE LISBOA
1 DE AGOSTO 2017 
CONVIDADA ESPECIAL 
PATRÍCIA GUIMARÃES





Patrícia Guimarães nasceu em 1985, em Lisboa.

Desde miúda que rabiscava as paredes da sala e dos quartos lá de casa. Mais tarde passaram a ser os cadernos da escola. O primeiro dia de escola foi um tormento, mas depois para além de desenhar percebe que gosta de ler e criar histórias.

O contacto com a Banda Desenhada chega com o Tio Patinhas e o Donald que lia de uma acentada. A seguir tenta acompanhar as aventuras dos super-heróis da Marvel, mas depressa se cansa.

Surgem as visitas anuais ao Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (quando a “Fábrica da Cultura” era verdadeiramente incrível!) e nessa altura os livros de Jean-Pierre Gibrat e Massimiliano Frezzato, ou Quino.

Mas será mais tarde, já na faculdade que irá descobrir outros autores que irão influenciar o seu trabalho, tais como Roland Topor, Hieronymus Bosch, Goya, Lorenzo Mattotti, João Fazenda, Filipe Abranches, Susa Monteiro, Alain Corbel, Marjane Satrapi, as animações de José Pedro Cavalheiro (Zepe), de Regina Pessoa, José Miguel Ribeiro, Marie Paccou, Michaela Pavlátová, Koji Yamamura e muitas outras referências visuais e/ou literárias como as que lhe vão chegando em conversas com amigos/as da área.

Não sabe como foi parar à Animação, mas depois de ter experimentado só pensa em dar vida às suas histórias, entretanto, e porque não existe uma sem a outra, vai fazendo Banda Desenhada e Ilustração.

CV

Patrícia Guimarães, Licenciou-se em Arte e Multimédia - Animação, na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL).

Em 2014 frequentou o Curso Laboratório de Ilustração e Banda Desenhada, na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL).

De 2014 a 2015 integrou a equipa de traçagem na produtora MODOImago para a produção dos filmes de animação VÍGIL e A CASA ou a Máquina de Habitar de Catarina Romano, participou ainda no desenvolvimento de outros projectos de animação.

Em 2015 apresentou “STABAT MATER”, no ano seguinte “MANUELinútil” publicados em parceriacom a Façam Fanzines e Cuspam Martelos (Tiago Baptista e Catarina Domingues).

Na mesma altura, participou activamente no projecto artístico SOU ESTA CASA.

Em 2016 vence o 3º Prémio no Concurso Nacional de Banda Desenhada e Cartoon 2016, na categoria de BD, na 27ª Edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora.

Tem trabalhos publicados em fanzines como Nicotina, Preto no Branco, Your Mouth Is A Guillotine e O Princípio.

Actualmente desenvolve projectos de Banda Desenhada, Ilustração e Animação 2D.

Contacto: patrice_guimaraes@hotmail.com - Site: patriciaguimaraes.weebly.com




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A H-alt é uma revista digital gratuita de BD escrita em português e relacionada com as temáticas de ficção-cientifica, fantasia, realidade/História alternativa (ficção especulativa).

O objectivo desta publicação é divulgar e incentivar produção de pequenas histórias de BD. Existe também a preocupação que os vários participantes criem histórias em equipa (argumentistas, desenhadores, coloristas), com o propósito de incentivar o trabalho colaborativo.

Existe também uma versão impressa correspondente à edição digital, acessível, por encomenda ou disponível em algumas livrarias.

Resumo:

A imagem da capa é da autoria do consagrado ilustrador Ricardo Cabral estando o seu trabalho em destaque nesta edição. Aparece também uma breve entrevista exclusiva com ele.

Na secção Descobrir é possível ver trabalhos de ilustração de Sara Leal.

Estão disponíveis nesta edição trinta e uma histórias de BD.
Este é o link para a versão on-line do nº5:
https://issuu.com/h-alt/docs/h-alt-n05-web

Autores Participantes neste número: Kim Roberts, João Tavares, Cristian Navarro, Joana Varanda, Tânia Cardoso, Sérgio Santos, Alberto Pessoa, Fábio Veras, Edgar Ascensão, Filipe Duarte, Catarina Eusébio, Roberto Gomes, Sofia Livesay, Alexandre Carvalho, Bárbara Lopes, Bruno Teodoro Maio, José Marono, Daniel Ablev, Gabriela Torres, M C Carper, Nick Valente, Sandro Leonardo, Mafalda Fernando, Francesco Conte, Gabe Ostley, Chris Allen, Jack Wallace, Machinson, Troy Vevasis, Matt James, Bob Schroeder, Nick Hadley.


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quarta-feira, 26 de julho de 2017

CORTO MALTESE FEZ 50 ANOS


CORTO MALTESE FEZ 50 ANOS
FOI PUBLICADO PELA PRIMEIRA VEZ 
NA REVISTA SGT. KIRK EM 10 DE JULHO DE 1967


Para ser sincero, não me lembrei que Corto Maltese começou a ser publicado exactamente há 50 anos na revista Sgt. Kirk com a mítica história Una Ballata del Mare Salato (Uma Balada do Mar Salgado) iniciada nessa revista a 10 de Julho de 1967. Foi graças a um post de Geraldes Lino no seu blogue “divulgando banda desenhada” (http://divulgandobd.blogspot.pt/) que me recordei dessa data e o próprio Lino também, graças a um artigo de Francisco Louçã, no jornal Público. Fica aqui a transcrição do texto de Louçã:

18 de Julho de 2017 
Por Francisco Louçã

Corto Maltese, 50 anos depois 

Parece que Mitterrand, perguntado sobre que personagens o impressionavam ou o seduziam, apontava para Corto Maltese. Matreirice, seria uma imitação mais elegante, mas escassamente menos narcísica, de um De Gaulle que afirmava que só temia a concorrência da popularidade de Tintin. Cada um vinha do seu tempo e, se ambos sobreviveram com um “perfume de lenda”, como escreve Umberto Eco sobre Corto, o facto é que foi Hugo Pratt quem marcou a imaginação que trespassa as fronteiras do espaço e da imaginação. Por isso, Corto Maltese é o herói moderno que sobrevive à sua contemporaneidade.

Talvez as pistas sobre este marinheiro maltês, filho de uma cigana de Sevilha e de outro marinheiro perdido, que nasceria em 1887 e cresceria no bairro judeu de Córdoba, ou seja, sem pátria, assistindo depois às guerras inaugurais do novo século, estejam por aí espalhadas: Italo Calvino participara na preparação de um guião de um filme, “Tikoyo e o tubarão” (1962, Folao Quilici), sobre uma criança que fala com o seu amigo tubarão, e horizontes oníricos desse tipo foram sendo explorados por muitos autores (veja-se a “Balada” ou “Mu”); e, evidentemente, a literatura de viagens aventurosas, de Rimbaud a Jack London, povoara a juventude de Hugo Pratt. Pratt, aliás, cresceu na Etiópia, viveu em Buenos Aires e Veneza, e sobretudo, percorreu as fábulas em que se mistura com Corto, a que dá forma no dia 10 de julho de 1967, com “A Balada do Mar Salgado” – fez agora cinquenta anos.

O maravilhamento de algumas figuras cimeiras da literatura com a banda desenhada, mesmo que a vissem como género menor, também não é de hoje e não se inventou certamente com Pratt. Steinbeck, que não era modesto, adivinhava provocatoriamente um Nobel para Al Capp, pela força do seu Li’l Abner, a representação encantatória do mundo rural norte-americano (e de uma simplicidade desarmante que levava a água ao seu moinho). Umberto Eco dedicou-se aos Peanuts e a Charlie Brown num livro, “Apocalípticos e Integrados” (edição portuguesa na Relógio d’Água), em que descreve os enquadramentos de cinema na tira do desenho.

Pode-se perguntar então de onde vem o ciúme ou a curiosidade que escritores de mérito têm da banda desenhada. No caso do sucesso de Pratt, percebe-se de onde vem essa sensação: é que Corto Maltese é mesmo um romance em forma de apresentação gráfica. Aliás, Pratt explora decididamente esse vínculo e pisca o olho à literatura clássica: Pandora lê Melville, Slutter lê Rilke e Shelley, Corto cita Conrad e a “Utopia” de More e, ao atravessar as mitologias (célticas, etiópicas, caribenhas, argentinas, venezianas, o vodoo ou o que lhe apetece), ao escolher com que se cruza (Butch Cassidy, o Barão Vermelho, Tiro Fixo, mas também Hemingway, Hesse, Joyce), vive aventuras que transcendem os limites do tempo. Nenhum romance pode pedir mais, se os traços são marcados, se as personagens vivem a sua vida, se nos surpreende, então é a melhor literatura. É certo que, sendo desenho, deciframos melhor nessas páginas alguma coisa do autor (Eco conta que a sua filha pequena, apresentada a Pratt, disse que ele era Corto), e portanto a mentira da literatura é vivida à nossa vista.

Mas Pratt morreu há vinte e dois anos. Corto, que é mais teimoso, continua agora com o desenho dos espanhóis Juan Diaz Canales (Blacksad) e Rubén Pellejero, em “Sob o Sol da Meia Noite”, já editado em Portugal (Arte de Autor, 2017), anunciando-se um segundo livro desta dupla, “Equatoria”. Discutir-se-á se outro escritor pode continuar “Os Maias” ou “A Guerra e Paz” e dir-se-á que não pode. Mas, neste atrevimento, Corto cruza-se com Jack London, encontra rebeldes irlandeses, sonha com Rasputine, destrói uma rede de tráfico de mulheres, percorre o Yucon – e nós imaginamos o resto e aceitamos a aventura.
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Obviamente a próxima Gazeta da BD será sobre Corto Maltese...

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