segunda-feira, 4 de junho de 2012

JOBAT NO LOULETANO – 9ª ARTE – MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (XLVIII e XLIX) – CARLOS ALBERTO E O MUNDO DA BD – ESBOÇOS DE MEMÓRIA 3 e 4 – Por José Batista




9ª ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA
(XLVIII - XLIX)

O Louletano, 1 a 7 de Março de 2005

CARLOS ALBERTO E O INUNDO DA BD
Esboços de memória – 3

por José Batista

Em toda a década de 50, mormente nos seus primeiros anos, a vigência da censura – embora de forma subtil – impunha um auto-condicionamento aos ilustradores portugueses de BD, tanto na temática como na planificação das vinhetas das histórias que executavam. O recurso aos temas históricos, foi, de certa maneira, uma das vias escolhidas para superar a situação criada em torno do vesgo puritanismo dos censores do regime. Verdade que, na BD dita histórica, a riqueza do ambiente arquitectónico, trajes, utensílios, e demais elementos da época em que a mesma decorre, permitia aos ilustradores expandir a sua verve criativa, produzindo trabalhos de notável qualidade e beleza.

A bíblia – o seu nível justificará o termo – desse género em Portugal, foi sem sombra de dúvida, a publicação n’"O Mosquito", e depois n’"O Mundo de Aventuras", das histórias do "Príncipe Valente", ilustradas por Hal Foster, bem como outros de menor craveira artística. Tal influenciou, sobremaneira, os nossos principais desenhadores, a começar por E.T.Coelho, V. Peon, José Garcês e outros, na esteira do que igualmente acontecera, embora noutras áreas, com as ilustrações de Alex Raymond, Milton Caniff, José L. Salinas, Neil O'Keeffe, etc, etc... chegadas até nós.

Curioso é que, nessa mesma época, no jornal da mocidade portuguesa, "O Camarada" a linguagem e a violência da acção ultrapassavam em muito, os condicionamentos impostos aos demais jornais de BD, em que as armas de fogo eram canhestramente banidas, os decotes acrescidos, entre outros mimos moralizantes de ridícula memória.

Talvez pelas razões apontadas – ou por mera apetência pelo tema histórico – a BD ilustrada por Carlos Alberto (CA) transitou, garbosa, galante e aventureira, por épocas várias - da medieval à contemporânea, retratando de mistura com a indispensável ficção, factos marcantes da nossa história.

Criterioso pesquisador de elementos referentes às épocas em que as tramas transcorriam, CA. obrigava-se, por uma questão de rigor histórico, a frequentar amiudadamente a Biblioteca Nacional (B.N) e o Museu de Marinha, entre outras instituições, compulsando vetustas raridades, apenas disponíveis nesses locais.

Inúmeras vezes o acompanhei ao primeiro desses locais, em busca dos necessários dados – especialmente trajos e armas – cujos alguns apontamentos, por mim feitos, ainda conservo, recordando. como se ontem fosse, a sã camaradagem, a aprendizagem naturalmente "bebida", e os meus 20 anos, incompletos na altura. As recolhas, nessa área (trajos e armas) eram utilizadas na BD que no momento CA desenhava. Após "Ousadia Triunfante", publica "A Espada Nazarena", história de 16 páginas, iniciada no MA n° 309, de 14/07/1955, na qual D. Fuas Roupinho é o medievo personagem.

Creio não andar longe da verdade se afirmar que o enredo e os textos das histórias, por si ilustradas no MA, são de sua autoria, embora sujeitos a pequena "monda" por parte de J.O. Cosme, director da publicação.

Vez por outra – livres dos compromissos que o casamento impõe – peregrinávamos, noite adentro, pela sadia boémia da Lisboa de então, em que deambular se podia sem os perigos que hoje caracterizam certos locais dessa grande metrópole.

Vinheta da BD "Ousadia Triunfante", publicada no "Mundo de Aventuras" nº 288, de 17 de Fevereiro de 1955


Toda a história Ousadia Triunfante, pode ser vista AQUI


Vinheta da história "A Espada Nazarena", publicada no "Mundo de Aventuras" nº 310 de 21 de Julho de 1955
Toda a história A Espada Nazarena, pode ser vista AQUI

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O Louletano, 8 a 14 de Março de 2005

CARLOS ALBERTO E O MUNDO DA BD
Esboços de memória – 4

por José Batista

Compunham a redacção da APR, no início dc 55, os seguintes elementos: Luís Miranda, Fernando Esteves, Rolo Duarte e Santos Neves, como redactores; Alfredo Silva, paginador; Filipe Figueiredo, Carlos Alberto e o autor destas linhas, na área da ilustração, além de dois miúdos de recados, o Ulisses e o Chaveiro. Os três primeiros redactores estavam mais adstritos às publicações "Plateia" e "Colecção Cinema", embora também colaborassem com pequenos textos nas revistas de BD. Foi aliás um deles, Fernando Esteves, quem organizou e traduziu todo o material utilizado na confecção do "Álbum do Mundo de Aventuras", saído no Natal de 1954, com capa de Filipe Figueiredo.


A casa onde Carlos Alberto viveu, até fins da década de 50, situava-se na Rua Possidónio da Silva, na esquina de umas íngremes escadinhas que ligavam essa rua à Tapada das Necessidades. Era uma casa de dois pisos, cuja entrada para o andar superior, onde morava com os seus pais, se fazia lateralmente através das ditas escadinhas, subidos meia dúzia de degraus. Por mera casualidade, fui viver para essa zona a escassos cem metros numa praceta mais acima, na mesma rua, em Dezembro de 1958. Embora colegas na Agência Portuguesa de Revistas (APR), éramos vizinhos, sem que o soubéssemos. A sede dessa editora, de cujo 7º andar onde morava, se avistava, ficava a cinco minutos de distância, e apenas tinha acesso, nessa época, através da Rua Saraiva de Carvalho.

Afora as primeiras páginas da BD "Ousadia Triunfante", talvez executadas ainda na Fotogravura Nacional, onde trabalhava, a parte restante fê-las Carlos Alberto já nas instalações da APR. Nessa altura utilizava de preferência a caneta ao pincel, sobre papel couché, e os seus originais, longe do tamanho dos de ET Coelho ou Vitor Peon, talvez não sofressem uma redução de 50 %, em relação ao formato impresso.

Utilizando simultaneamente a caneta e/ou o pincel, Carlos Alberto dará preferência à caneta na execução da "História de Portugal" e "Tarzan e a Escrava", assim como na maior parte das histórias publicadas n"O Mundo de Aventuras", embora vez por outra – capa MA 288, e outros – use somente o pincel.

A apetência pela sua utilização surgirá, naturalmente, com a prática adquirida na feitura de cromos e capas, a guache e a ecoline, nas quais o pincel é utensílio único e indispensável. Será na sequência dessas ilustrações, e na experiência adquirida na sua execução, que a preferência pela pintura – dado o seu imenso campo de pesquisa c experimentação – conquista definitivamente CA. à área da ilustração a preto e branco e, concretamente, à BD.

A magnífica história de Camões – talvez o seu apogeu em banda desenhada – assim como todas as ilustrações a partir daí, são-no maioritariamente executadas a pincel, o mesmo acontecendo à BD "A Filha do Rei de Nápoles", em publicação nestas páginas, cujos originais foram os últimos por si executados, em 1991.




Capa do Mundo de Aventuras nº 309, fotomontagem com o retrato de Carlos Alberto, no início da publicação de A Espada Nazarena.


O Camões de Carlos Alberto.

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A FILHA DO REI DE NÁPOLES
PRANCHAS 7 e 8
Jorge Magalhães (argumento) e Carlos Alberto (desenhos)


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