domingo, 23 de junho de 2013

GAZETA DA BANDA DESENHADA (7) – NA GAZETA DAS CALDAS – O BAILE – ZOMBIES À PORTUGUESA NOS ANOS 1960 É O “LIVRO DO ANO”

GAZETA DA BANDA DESENHADA (7)
NA GAZETA DAS CALDAS
O BAILE
ZOMBIES À PORTUGUESA NOS ANOS 1960 
É O “LIVRO DO ANO”

Gazeta das Caldas, 21 de Junho de 2013

O Baile, com argumento de Nuno Duarte e desenhos de Joana Afonso, editado pela Kingpin Books, foi o vencedor dos Prémios Profissionais de BD 2013, como deixámos aqui noticiado na anterior Gazeta da BD.

O livro conta com um prefácio de Filipe Melo, músico de jazz, realizador de cinema e argumentista da série de banda desenhada com maior sucesso em Portugal nos últimos anos, As Aventuras de Dog Mendonça & Pizzaboy.

Nuno Duarte, o argumentista, nasceu em Janeiro de 1975 em Lisboa, crescendo entre o melão e a sopa da pedra lá para os lados de Almeirim, como gosta de dizer. Estudou Direito na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa e tem um bacharelato em Inglês da Universidade de Cambridge. Deu aulas de Inglês em Santarém e em Lisboa, voltando-se para a escrita e o guionismo desde 1999, desempenhando funções de editor e guionista na empresa de animação Magic Toons. Como escritor “free lancer” desde 2001, tem já um largo curriculum, tendo desenvolvido trabalhos de jornalismo, tradução e guionismo para empresas e entidades como o jornal Público, as editoras Devir, Meribérica e Vitamina BD, e o canal televisivo SIC. Vencedor do apoio do ICAM para séries de animação em 2002 com a série "O turno da noite", produzida pela Animanostra. Como argumentista de banda desenhada é co-autor das novelas gráficas "Paris Morreu", para a editora El Pep e "Mutate & Survive" para a editora Chili Com Carne, “A Fórmula da Felicidade” (volumes 1 e 2), editados pela Kingpin Books, por exemplo. É actualmente associado das Produções Fictícias.

Joana Afonso, a desenhadora, nasceu em 1989. Licenciou-se em Pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, onde se tornou monitora de desenho, sendo actualmente Assistente Convidada da mesma Faculdade. Tornou-se ilustradora, desenhadora de BD, já com alguma eperiência em animação. Venceu em 2011 o Prémio Nacional de Banda Desenhada do Festival da Amadora e tem colaborado com diversos fanzines, como o “Efeméride” (Corto Maltese no século XXI), de Geraldes Lino, ou no BDLP (fanzine de BD dos países de língua portuguesa), tendo também publicado trabalhos seus na revista Zona. Faz parte do The Lisbon Studio – um atelier que reúne vários autores de BD portuguesa e de que falaremos nesta rubrica em breve. O Baile foi a sua primeira obra publicada em livro.

Ora, O Baile é uma pequena obra em banda desenhada (de 46 páginas a cores) sem grandes pretensões. Podiamos designá-lo como um “divertimento”, até com o carácter "divertido" - dado pelo desenho meio cartoonesco -, que na música define este género.

Partindo de um facto real dos anos sessenta, como pretexto para desencadear a história: a visita do Papa Paulo VI a Fátima em 1967, um inspector da PIDE (a polícia política do Estado Novo), é incumbido de investigar o que se passa numa pequena aldeia piscatória, onde uma horda de pescadores mortos nas suas lides, saem do mar em noites de lua cheia para aterrorizar a aldeia.

Enquanto vai sendo informado dos factos pelo padre da aldeia, o inspector Rui Brás vai revelando problemas de consciência pelos interrogatórios que já fez a presos políticos e que interferem no seu discernimento em entender a situação que o padre lhe relata. É um sujeito com dúvidas em relação ao que faz, disposto a fugir para Paris – possui mesmo um bilhete de comboio para esse fim...

Não desvendamos mais acerca da história, para não comprometer o interesse do livro a eventuais interessados. Digamos apenas que as acusações da situação em que a aldeia vive, se centram numa jovem (a Alzira), cujo noivo morre nas fainas do mar e, ansiando por ele, é acusada pelos outros aldeões de “chamar os mortos no mar”, para estar com o seu amado. A investigação irá revelar um protagonista insuspeito para esta invasão de “zombies”.

O argumento de Nuno Duarte é simples e quase linear, mas eficaz, não pretendendo montar aqui uma “peça de relojoaria” demasiado sofisticada. As referências a factos, ou mesmo modas (Madalena Iglésias canta “Ele e ela” no rádio do carro do inspector) da época histórica, asseguram a ambientação da narrativa, tornando-a credível. Mesmo que as referências às torturas da PIDE (a que o inspector Rui Brás chama “baile”), a referência ao passado do padre Bento como capelão do exército em Angola, etc... poderiam ter sido tratadas com maior profundidade, embora nos pareça que o autor do texto não quis desviar os leitores da acção, com questões colaterais a ela.

Será este livro um ponto de partida para a abordagem do recente passado histórico português, que ainda falta na BD deste país?

O Baile
De Nuno Duarte (argumento) e Joana Afonso (desenhos)
Edição Kingpin Books, 2012
46 páginas a cor - formato 18,50 x 26 cm – preço: € 12,95

Já agora, informamos os leitores que Paulo Monteiro acabou de ver o seu (único) livro, O INFINITO AMOR QUE TE TENHO E OUTRAS HISTÓRIAS editado em França, depois de o ter sido já na Polónia e em Inglaterra. A próxima edição será a espanhola, a 21 deste mês – É obra!

Falaremos de Paulo Monteiro e dos seu livro na próxima Gazeta da BD.

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