sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

GAZETA DA BD #19 - A EDIÇÃO DE BANDA DESENHADA PORTUGUESA EM 2013

GAZETA DA BD #19 
NA GAZETA DAS CALDAS
Gazeta das Caldas, 17 de Janeiro de 2013

A EDIÇÃO DE BANDA DESENHADA PORTUGUESA EM 2013
Jorge Machado-Dias

Editar Banda Desenhada portuguesa em Portugal actualmente é um exercício de quase masoquismo. Àparte as edições Asa (agora Leya/Asa) – e isto só enquanto Maria José Pereira comandava os destinos editorias na área da BD nessa editora, tendo sido responsável pela edição de uma boa quantidade de títulos de BD portuguesa –, o panorama actual é negro. De resto as iniciativas editorias resumem-se a três ou quatro pequenos editores – a quem normalmente se chama “independentes”, mas a que prefiro chamar mesmo de “pequenos editores” –, que, não tendo capacidade para grandes voos, mesmo assim têm exercido o métier com grande profissionalismo e qualidade no que editam.

O público em geral, com o advento de novas gerações, vai tirando da cabeça aquele velho estigma de que a BD é uma coisa para miúdos. Só que esse público mais jovem, que vai encarando já a banda desenhada como qualquer outro meio de leitura, não tem grande capacidade financeira, resultando isto em compras/vendas de valores irrisórios que não permitem a construção de uma verdadeira “indústria” do ramo.

São pois os pequenos editores* que vão mantendo viva em Portugal a chama deste média da cultura popular (ou de massas), que se transformou já no paradigma da “literatura gráfica”, um pouco por todo o mundo, com obras-primas de grande qualidade. Lembremos que a banda desenhada, tal como o cinema, é originária dos mesmos meandros da chamada cultura popular, na segunda metade do século XIX.

Assim, a produtividade editorial no campo da BD portuguesa em 2013, assentou sobretudo nas edições da Polvo e da Kingpin Books, mas também da editora “underground” CiliComCarne. Há quem afirme que a banda desenhada portuguesa se reduziu à edição de livros “de autor” publicados por pequenos editores, com tiragens entre os 300 e 700 exemplares. A única edição que  nos últimos anos podemos classificar de “mainstream” (ou comercial – com maiores tiragens e maiores vendas), terá sido DogMendonça e Pizzaboy, cujos três volumes foram editados pela Tinta da China e têm batido recordes de vendas e, consequentemente, de reedições.

Claro que existem também alguns autores que se auto-editam, com ou sem chancela própria. E há também quem se edite directamente na internet – existem mesmo duas ou três “revistas“ portuguesas online e alguns “web comics” a serem publicados, mas por enquanto esse meio não gera receitas.

Por outro lado, os grandes problemas deste pequeno “sistema” editorial de BD, são a divulgação (apesar da internet e das dezenas de blogues que divulgam quase tudo, mas que não chegam ao grande público) e sobretudo a distribuição. Pode dizer-se mesmo que o maior problema dos pequenos editores é sobretudo a distribuição – ou a falta dela. Isto, por um lado, porque as distribuidoras exigem percentagens que, somadas às das livrarias podem chegar aos 65% do preço de capa dos livros e, por outro lado, as tiragens praticadas não chegam para cobrir todas as livrarias e pontos de venda de livros do país.
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Quanto a mim, um dos modos de promoção mais eficazes para promover a BD portuguesa, nos actuais moldes de edição, seria através das premiações, com a correspondente divulgação na comunicação social – sobretudo a impressa e mesmo a televisiva. Já existem três premiações para a edição de Banda Desenhada: os Prémios “Nacionais” de BD (promovidos pelo FIBDA), os Troféus Central Comics (promovidos pelo portal online com o mesmo nome) e os Prémios “Profissionais” de Banda Desenhada. Contudo todos eles pecam por problemas estruturais e de concepção nos seus regulamentos, que lhes retiram alguma credibilidade. Falaremos melhor desta questão um dia destes...

Nota: o parágrafo acima não fez parte do texto publicado, por falta de espaço.
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(*) Continua, um pouco por toda a parte, a persistência de alguns escribas em chamar “independentes” aos pequenos editores o que, em meu entender é uma falácia. Isto porque o termo tem origem na expressão “indy-comics”, surgida nos Estados Unidos no início da década de 1990 para as produções de comic books por pequenos editores, que se intitulavam a si próprios como independentes. Estes editores passaram a fazer concorrência aos grandes editores que eles consideravam “o sistema” – constituido por quatro ou cinco mega editores, actualmente reduzidos à DC Comics, Marvel Comics e Archie Comics. Marcavam com essa designação a sua independência em relação ao “sistema” dominado por esses grandes editores. Ora em Portugal os pequenos editores são “independentes” de que sistema, se os grandes editores já não publicam BD? Mesmo a Asa reduziu drasticamente a sua edição de BD traduzida do mercado franco-belga. Podemos dizer até, que o sistema de edição de BD portuguesa é já dominado pelos pequenos editores e pela edição de autor. Portanto o uso daquele termo é uma americanice que não faz qualquer sentido por cá.

Vejamos então uma lista do essencial que se publicou em banda desenhada de autores portugueses em 2013:


Kassumai
David Campos
Edição ChiliComCarne


LoverBoy na Feira das Vanessas
Marte, João Fazenda, Jorge Coelho
e ainda António Kiala, Arlindo Yip Sou, Miguel Falcato, Nuno Nobre, Pedro Brito, Rui Gamito e unDJ GoldenShower
Edição ChiliComCarne


Love Hole
Afonso Ferreira
Edição Chili Com Carne e Ruru Comix


O Desenhador Defunto 
(Bilingue Português/Alemão)
Francisco Sousa Lobo
Edição Chili Com Carne


Rosa Delta sem Saída
Fernando Relvas
Edição Polvo


Comic Transfer
Til Lassman e Ricardo Cabral
Edição Polvo


Super Pig – Roleta Nipónica
Mário Freitas, Osvaldo Medina, Gisela Martins e Sara Ferreira
Edição Kingpin Books


Palmas para o esquilo
David Soares (argumento)
Pedro Serpa (desenho)
Edição Kingpin Books


O Baile – 2.ª edição
Nuno Duarte e Joana Afonso
Edição Kingpin Books


Anos Dourados
Marco Mendes
Edição Turbina/Mundo Fantasma 


Balcão Trauma
Álvaro
Edição Insónia


No presépio
José Pinto Carneiro – Álvaro
Edição Insónia


Mahou – Perdidos no Tempo II
Vidazinha e Hugo Teixeira
Edição Asa/Leya


As Aventuras de DogMendonça e PizzaBoy III – Requiem
Filipe Melo, Juan Cavia e Santiago Villa
Edição Tinta da China


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