sábado, 8 de março de 2014

BDpress 410: VENDA DE LIVROS CAI EM PORTUGAL – E – A BANDA DESENHADA NUNCA VAI MORRER


VENDA DE LIVROS EM PORTUGAL CAI 4,6%, 
PARA 310 MILHÕES DE EUROS
Público.pt, 03/03/2014 

Por Diana Inácio Mendes 

A facturação no sector da indústria editorial no mercado nacional desceu 4,6% em 2013, face ao ano anterior, devido à quebra do consumo das famílias e ao aumento de conteúdos disponibilizados online.

A venda de livros em Portugal sofreu uma quebra de 4,6% face ao exercício anterior, o que representa uma facturação de 310 milhões de euros em 2013, segundo o estudo Sectores Portugal, publicado pela DBK, da Informa D&B.

O estudo revela que esta descida se tem verificado ao longo dos últimos anos, sendo que a sua origem está na quebra do consumo das famílias portuguesas, “devida à crise económica” e à “difusão de conteúdos disponíveis na Internet”.

Angola e Moçambique “são os principais mercados de destino de livros portugueses”, representando 47% e 16%, respectivamente, do valor total das exportações. No entanto, e “após vários anos de notável crescimento”, as exportações estagnaram em 2013, para um total de 55 milhões de euros.

No mesmo período, a produção no mercado editorial registou uma descida de 4,7%, para 324 milhões de euros, acompanhando a “tendência de redução do número de editoras”, que engloba actualmente cerca de 460 empresas e “emprega hoje 2600 trabalhadores”.

“Apesar da reduzida dimensão média das empresas do sector, nos últimos anos tem-se desenvolvido um processo de concentração impulsionado pelas operações de aquisição e fusão entre empresas levadas a cabo por alguns dos grupos de maior dimensão”, detalha a estudo, acrescentando que, em 2012, os cinco maiores operadores reuniram uma quota de mercado conjunta de 64%, percentagem que chegou aos 77%, considerando a participação conjunta dos dez primeiros.

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Isto não falando das vendas de livros de Banda Desenhada, para as quais não temos dados específicos. Mas que também devem ser deprimentes para os editores e para os autores!

Vejamos um artigo publicado no Público.pt, já em 21 de Novembro de 2013, escrito por Tiago da Bernarda, apesar de empregar na escrita algumas designações erradas, como por exemplo o bater na tecla das editoras “independentes” ou na “industria” da BD (coisas que não existem em Portugal) – o autor do texto deve estar habituado a estas designações, eventualmente ao escrever sobre comics norte-amercianos e aqui esquece-se que está a escrever sobre banda desenhada europeia:


A BANDA DESENHADA 
NUNCA VAI MORRER
Público.pt, 21/11/2013 
Por Tiago da Bernarda 

Depois de um período em que pouco foi publicado, as editoras independentes de banda desenhada voltam a investir cada vez mais em autores e ilustradores portugueses

Vender 400 exemplares de um livro é motivo de rejúbilo para qualquer editora independente de banda desenhada portuguesa.

Foi o caso de O Baile, de Nuno Duarte e Joana Afonso, que após ter vencido o prémio para melhor álbum português no festival de banda desenhada da Amadora, esgotou a sua primeira edição. Lançado em Outubro de 2012 pela editora Kingpin Books, O Baile é já um caso de sucesso mas que não reflecte a situação actual da banda desenhada portuguesa a nível de vendas.

Capa da 2ª edição

“Infelizmente o sucesso crítico e sucesso de vendas não coincidem”, disse ao PÚBLICO Mário Freitas, fundador da Kingpin Books. Com tiragens que variam entre os 200 e os 700 exemplares, os livros publicados pelas editoras independentes de BD em Portugal mantêm um fenómeno de culto reduzido ou, como vários na indústria referem, “um nicho dentro de um nicho”.

“Se a cultura é um nicho e a leitura também, então a BD é apenas um cantinho nesse nicho”, afirmou Nuno Duarte, autor nas Produções Fictícias e argumentista de O Baile. “Nós temos autores, editores e público mas faltam-nos duas coisas: distribuição e divulgação”, palavras de Pedro Pereira, também conhecido como Pepdelrey da editora El Pep, que apresenta um dilema comum e que parece retratar a génese das pequenas editoras de BD portuguesa e o espírito da auto-publicação.

“As grandes editoras não se chegam à frente e portanto aparecem artistas que querem fazer banda desenhada só porque gostam de banda desenhada”, comentou Pedro Moura, investigador e crítico de banda desenhada. Estas duas editoras, por exemplo, publicaram este ano dois livros que contam a história de um paciente anónimo, agitado por uma crise existencialista, que tenta escapar do hospício onde está internado.

Duas sinopses semelhantes mas com grandes diferenças. Um apresenta a agonia do seu protagonista a partir de uma técnica mista sobreposta por tinta-da-china e o outro tira partido de uma ilustração digital minimalista que acompanha a metamorfose gradual de um homem que se transforma em esquilo. Psicose, de Miguel Costa Ferreira e João Sequeira, lançado em Abril de 2013 pela El Pep, e Palmas Para o Esquilo, de David Soares e Pedro Serpa, lançado pela Kingpin Books em Julho de 2013, são dois álbuns que exemplificam o que no final dos anos 80 se definiu como “banda desenhada de autor”.


No caso de O Baile, uma reinvenção do género thriller norte-americano sobre um agente da polícia política PIDE que investiga casos paranormais, desenhado por Joana Afonso, formada em pintura e animação, contribui com um estilo de ilustração próprio sem semelhança a qualquer um dos seus contemporâneos.

No entanto, o seu sucesso de vendas não foi motivo de espanto para Mário Freitas, da Kingpin Books, que já tinha previsto que a primeira edição de O Baile iria esgotar, tendo em conta que os vencedores das últimas edições do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora também esgotaram a sua primeira edição. A editora Polvo imprimiu uma segunda edição de O amor infinito que te tenho e outras histórias, de Paulo Monteiro, considerado melhor álbum em 2011, enquanto As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, escrito por Filipe Melo e editado pela Tinta-da-China, vencedor do mesmo prémio em 2012, já vai na terceira.


Então o que mudou no rumo da banda desenhada portuguesa? “Não se vêem tanto as novas tendências como se vêem formas mais inteligentes de edição”, analisa Pedro Moura. “Nos anos 90 havia uma conversa megalómana onde algumas editoras independentes achavam que iriam conquistar todo o panorama, e agora temos editoras que começaram com lançamentos pequenos e gradualmente foram conquistando o seu público.” Pedro Moura, que foi comissário da exposição de banda desenhada Tinta nos Nervos, no Centro Cultural de Belém em 2011, refere a Chili Com Carne e a Edições Polvo como editoras marcantes que surgiram nos finais dos anos 90. Editoras vanguardistas que publicavam pequenas tiragens de artistas interessados em fazer BD mas que fugiam às tendências procuradas pelas grandes editoras em Portugal.

“Criou-se uma grande expectativa de que as grandes editoras iriam pegar neles”, comentou Pedro Pereira da El Pep, fundada em 2002. A atitude “faça você mesmo” de artistas(*) portugueses que não queriam estar dependentes de distribuidoras gerou uma produção imensa de micro publicações geralmente disponíveis em feiras, salões e festivais.

No entanto, nos últimos anos, mesmo as editoras independentes deixaram de publicar com tanta frequência. “Até 2008, muitos de nós tínhamos parado de publicar”, diz Pedro Pereira. Segundo Marcos Farrajota, fundador da Chili Com Carne e funcionário da Bedeteca de Lisboa, “as editoras pequenas não se conseguiram organizar para serem autónomas na altura.” Mário Freitas, da Kingpin Books, sugere outra razão. “O problema é que foi editada demasiada coisa e demasiada coisa má numa altura de vacas gordas.”

Simultaneamente, o encerramento de espaços como o Salão Lisboa de Banda Desenhada e Ilustração e a reestruturação da Bedeteca de Lisboa conturbaram a já limitada interacção pessoal entre as editoras e o seu público. Contudo Marcos Farrajota dá a entender que não houve apenas uma diminuição de vendas de banda desenhada independente como também da banda desenhada em geral. “As grandes editoras praticaram uma política de ‘terra queimada’ impondo álbuns franco-belgas para um público que já não queria isso.”

O segundo boom

“Quando a oferta começa a baixar, surge a oportunidade das pequenas editoras voltarem ao mercado”, diz Nuno Duarte. “De repente, as editoras ASA e Devir acalmam a sua produção e pessoas como o Mário Freitas metem a Kingpin de pé e começam a trabalhar. O Rui Brito da Polvo e o Pedro Pereira da El Pep voltam a editar.”

Há também o caso de Pedro Brito, co-fundador das edições Polvo e do fanzine Mesinha de Cabeceira, que decidiu investir na sua webcomic Margem Sul. “Essa descida de publicações permitiu que cada um seguisse o seu próprio caminho”, disse.

Insatisfeitos com o mercado português, pessoas como o Pedro Pereira ou Marcos Farrajota levaram alguma da sua mercadoria para feiras internacionais como o Festival de Banda Desenhada de Angoulême, o maior do género a nível mundial. Desde então, Pedro Pereira diz que a recepção de material português lá fora tem sido positiva.

Ainda este ano, a Chili Com Carne lançou o livro O Desenhador Defunto, de Francisco Sousa Lobo, na Galeira Kamm, em Berlim. Joana Afonso, de O Baile, lançou também a minicomic Living Will, com André Oliveira, para ser distribuído no Reino Unido. O Amor Infinito Que Te Tenho, de Paulo Monteiro, que já se encontra em Espanha, França e Polónia, será também distribuído no Brasil e no Reino Unido no início do próximo ano.



Porém, o caso português de maior sucesso a nível comercial tem sido o da trilogia As Aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy, de Filipe Melo. Originalmente editado pela Tinta-da-China, a saga foi publicada também pela Dark Horse Comics, uma das maiores distribuidoras mundiais. Os livros, influenciados pela banda desenhada norte-americana e os filmes de terror e suspense, contam a história de um jovem lisboeta que se junta a uma equipa de criaturas paranormais para impedir a destruição do mundo. O último livro foi lançado a 10 de Novembro, na AmadoraBD.

“O Filipe Melo tem esse olho de perceber que o produto é viável para muitas gerações e possivelmente o primeiro grande sucesso comercial da banda desenhada portuguesa”, comentou Nuno Duarte. Embora um sucesso a nível de vendas, Filipe Melo fez uma campanha de angariação de fundos online para conseguir lançar o último livro, As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy — Requiem.

“Os dois primeiros livros foram um sacrifício financeiro para mim”, confessa Filipe Melo. “A história original foi escrita em 2004 mas só foi publicado em 2009. Acho que o estado do mercado na altura não estava preparado para publicar um livro do género.”

Uma nova postura

A integração de artistas e consumidores de banda desenhada na Internet facilitou a interacção entre ambos. Não só se tornou na plataforma de eleição para exposição de artistas emergentes como também tornou a distribuição de livros num processo mais fácil e menos dispendioso para as editoras independentes.

“Existe uma maior proximidade e uma criação de público a partir das plataformas online”, diz Pedro Brito. “Hoje em dia, se conseguir fazer chegar o meu trabalho a seis mil pessoas e se apenas 10% dessas pessoas decidirem comprar um livro meu, são 600 livros que consegui vender.” Das feiras especializadas para plataformas online gratuitas como o Tumblr, encontram-se ainda artistas interessados em criar fanzines. “Tens putos de 20 anos com cursos superiores que têm ferramentas de divulgação mais acessíveis e rápidas”, defende Pedro Pereira. “Perdeu-se aquele lado amador e agora temos pessoas que amadureceram, com uma visão mais profissional e mais exigentes.”

De uma nova geração de artistas que nasceram no início do vanguardismo dos anos 90, “putos” como o lisboetas Zé Burnay e Afonso Ferreira ou o portuense, que colaboram também com Marcos Farrajota, da Chili Com Carne, já começam a apostar no mercado internacional. No caso de Rudolfo, foi o artista por detrás de Negative Dad, banda desenhada criada pelo vocalista da banda norte-americana Wavves. “Sinto que a BD em Portugal está mais forte até porque me lembro que há três anos, sentia que era uma das únicas pessoas a fazerem fanzines da banda desenhada mais alternativa.”


Mais influenciados pela cultura pop, mangas, banda desenhada alternativa norte-americana e desenhos animados como Adventure Time, estes artistas [autores] dão continuidade ao espírito da auto publicação. No mesmo sentido em que se fugia das grandes editoras, os novos artistas já não se encontram limitados às independentes. ”A banda desenhada nunca vai morrer porque vai sempre haver uma necessidade de produção e de criação. Não são impedimentos sociais ou institucionais que vão impedir que eu, ou qualquer autor de banda desenhada, pegue numa caneta e num papel e produza, digitalize e ponha na Net”, comenta Pedro Brito. “Depois disso, logo se vê.”

(*) Também aqui, estamos sempre a bater na mesma tecla, não existem “artistas” na Banda Desenhada, existem escritores/argumentistas e ilustradores, coloristas, (autores, na generalidade) etc... O termo genérico “artistas” aplicou-se, a partir do início do século XX a toda uma panóplia de actividades (artistas de cinema, de circo, da rádio, do teatro, etc... referindo-se normalmente aos actores) que desprestigiou completamente o termo, de tal maneira que será preferível não o aplicar – a não ser quando especificamente se referem a “artistas plásticos”, por exemplo.

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